sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A imprensa e a educação

Não quero entrar na polêmica se o digital substituirá o impresso. Tem gente que gosta de fazer enormes discussões sobre isso, mas acho que a melhor resposta para essa questão só pode ser dada pelo futuro. O que o presente nos revela é que constantemente as empresas gráficas buscam cada vez mais tecnologias e o mercado constantemente procura os seus serviços de forma intensa.
Talvez as pessoas que sugerem a futura substituição de todo trabalho gráfico para o trabalho digital desconsideram como seria difícil a vida de hoje sem as empresas gráficas. Essa realidade não é difícil, portanto, de imaginar, se olharmos para a história e nos remetermos à vida antes do grande invento de Gutenberg.
Os amanuenses, também conhecidos como copistas, copiavam diversos textos e documentos à mão. Essa era a única forma para reproduzir uma obra literária para que mais pessoas pudessem ter acesso a eles. Com esse minucioso trabalho de escrever página por página de um livro, em 1424, por exemplo, a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, possuía apenas 122 livros – e o preço de cada um era equivalente ao de uma fazenda ou vinícola. Sim, na época existia universidade, mas era algo bem mais elitizado do que hoje. Com o livro valendo os olhos da cara, não existia muito motivo para se aprender a ler e aquela sociedade, predominantemente rural, tinha a enorme maioria de sua população analfabeta.
Como se não fosse o bastante, algumas pessoas que tinham o conhecimento não o compartilhavam e ainda se aproveitavam da ignorância da maioria. Acredito que a frase célebre de Josef Goebbels, o marqueteiro político de Hitler, expressa bem o que acontecia nessa época: “Uma mentira, cem vezes dita, torna-se verdade”. Infelizmente, isso faz parte de nossa história. A venda de indulgência, por exemplo, foi algo repetido várias vezes que fez com que ninguém mais contestasse essa realidade. Ainda mais porque era dito por pessoas que tinha acesso a importantes livros e ainda convenciam a população de que suas diretrizes estavam baseadas nas Sagradas Escrituras.
Foi neste contexto histórico que surgiu o grande invento de Gutenberg.
Foi em 1455 que esse ourives alemão realizou seu grande sonho de pegar nas mãos um livro impresso com sua técnica inédita e infalível: a prensa de tipos móveis. Esse livro era o Novo Testamento que tinha acabado de ser traduzido pelo monge e professor universitário, Martinho Lutero, afim de criar uma geração de críticos. Vale lembrar que poucos do clero tinham conhecimento do latim e com essa tradução fariam pessoas influentes refletirem sobre o que acreditavam. No entanto, não podemos também esquecer que esses quase 200 livros foram impressos numa época que poucos sabiam ler.
Porém Gutenberg e Lutero realmente queriam formar uma população crítica, que pensasse, refletisse e se desenvolvesse, não somente na fé, mas em vários outros campos. Então, essa primeira empresa gráfica, ainda no século XV, assumiu a importante responsabilidade social de não somente imprimir o livro, mas também educar a população. A partir da imprensa, Lutero foi encorajado a criar um grande projeto que incluiu construção de escolas populares. Outros livros começaram a ser impresso e o povo estava sedento por leitura. Até 1489, já havia prensas na Itália, França, Espanha, Holanda, Inglaterra e Dinamarca. Em 1500, cerca de 15 milhões de livros já haviam sido impressos. Gutenberg conseguiu, com seu invento, suprir a crescente necessidade por conhecimento da Europa rumo ao Renascimento.

A imprensa transformou o mundo já no início e mostrou ter poder de fazer ainda muito mais do que podemos imaginar. Certa vez ouvi uma frase em uma palestra do consultor de negócios da NASA, Rich Porter: “Nada nos difere de um analfabeto quando decidimos por não ler”. Não sei se a frase é dele ou ele simplesmente ouviu de outra pessoa e falou, mas acho relevante pensar que agora temos acesso muito mais fácil de informação para refletir, criticar, questionar, agir e crescer. Vamos fazer bom proveito, então.

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