quarta-feira, 3 de julho de 2013

Vira-vira da vida

Um homem rico e nobre foi sair de viagem, e chamou seus empregados para confiar-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outros dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. Mas o que tinha recebido um talento saiu, cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do nobre homem.
Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O nobre homem respondeu: ‘Muito bem, empregado bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’
Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’. O nobre homem respondeu: ‘Muito bem, empregado bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’
Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’. O nobre homem respondeu: ‘Sujeito mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros. Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado.


A história a cima foi contada pelo Sábio e ando ultimamente me lembrando muito dessa história, pensando em um bocado de coisa (talvez umas dez coisas) e principalmente refletido sobre o vira-vira da vida. Gostaria então de compartilhar esses pontos que extraí de uma história aparentemente simples.

Primeiro: A distribuição de recursos e talentos.
Por que uns tens mais e outros menos? Não apenas em bens materiais, mas também em suas habilidades e (Por que, não?) recurso emocional, social ou qualquer outra coisa boa que um possa ter mais e outro menos. Por que algumas pessoas parecem ter nascido com a bunda virada para lua e outras pessoas simplesmente nasceram com a cara virada para o sol? O mundo é injusto? Talvez, mas esse texto, ao dizer que  foi dado "a cada um de acordo com a sua capacidade" nos convida a refletir que não. Também vejo nessa história que uma pessoa pode ter recebido pouco de um bem e muito de outro, conforme a sua capacidade para cuidar de uma coisa e não de outra. Seria injustiça se o de menor capacidade não tivesse ganhado sua chance. Ou então se o de menor capacidade ganhasse mais que os outros. Ainda mais porque os bens não foram dados, mas confiados, e por isso cada um tem uma responsabilidade com o que aparentemente é seu. Ben Parker já dizia algo parecido: "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades".

Segundo: Quem cuida bem sempre tem.
Vamos supor que eu tenho uma habilidade para tocar violão. Se eu me dedicar praticando, fazendo exercícios, buscando referências e assim por diante e vou melhorar cada vez mais. Ao passo que se eu for relaxado com minhas habilidades uma hora que eu for tocar violão vou passar vergonha. O mesmo vale para dinheiro: Dinheiro faz dinheiro. Assim, se cada um fosse fiel aos talentos que tinham em mãos, seja qual fosse a quantidade, eles iriam render. A novidade que esse texto traz é que isso ocorre de forma natural e sobrenatural. O cara que tinha cinco cuidou bem e teve dez. O que tinha dois teve quatro. Esse crescimento proporcional e gradativo é natural. Mas o que me chama a atenção e que mesmo depois de ter dobrado o homem nobre diz "Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito" como se fosse dar mais do que ele conseguiria com seus próprios esforços. E pelo o que eu entendi isso acontece indiferente da crença da pessoa. Isso quer dizer que esse extraordinário crescimento não acontece em consequência de um ritual religioso, místico ou sei lá o que, mas é proveniente do ordinário ritual de zelar pelos recursos que lhe foram confiados.

Terceiro: Quem cuida mal é mau.
"Sujeito mau e negligente": É assim que o empregado que não cuidou do que lhe foi confiado foi chamado. O homem nobre reconheceu e recompensou seus funcionários fieis e ainda disse "Venha e participe da alegria do seu senhor!", mas o terceiro funcionário vem na retaguarda (normalmente fazemos isso quando estamos certo de que estamos errados) dizendo que o cara era severo e coisa e tal. Ele devolveu um talento valendo menos do que era no início e quis fazer o outro se sentir culpado? É bem típico isso, mas ainda assim é comum algumas pessoas ficarem incomodadas com essa parte do texto, pois, afinal, coitadinho do terceiro funcionário. Além de ter ganhado menos, estava nervoso e não tinha tanta habilidade. Certo? Acho que não é bem assim. Quer ver? Saber aquelas habilidades que você tem e as esconde? Então, é comum a gente dar um monte de desculpa e tal, mas sinceramente por que você faz isso?

Quarto: Quem não sabe cuidar é mau?
"Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros". Não sabe? Peça ajuda. Isso é lícito. Eu não sou sozinho no mundo e há vários motivos para eu saber mais de uma coisa que outra pessoa e vice-versa.

Quinto: Mordomia.
Até o quarto ponto eu acho que são reflexões bem simples. As próximas conclusões eu considero mais complexas. Essa de mordomia, por exemplo, não é uma reflexão minha, mas de João Calvino, que acabei comprando. É mais ou menos assim: Meus talentos e bens não são meus, mas apenas me foram confiados. O meu trabalho é cuidar dos talentos e bens que estão em minhas mãos.

Sexto: Sentido da vida.
Não falei que as conclusões seriam mais complexas? Muita gente fica se perguntando o sentido da vida. Outros respondendo "42". Acho que esse texto traz algumas pistas do sentido da vida. Se recebemos alguns talentos e o outros recebem em quantias diferentes, sejam pra mais ou pra menos, o que importa é ver o que nos foi confiado e zelá-los com excelência.

Sétimo: Um dia de cada vez.
Talvez um talento nos seja tirado por nossa negligência e outros nos atribuídos. Pode ser que amanhã teremos 5 vezes mais do que temos hoje. Mas o que essa história me encoraja é de viver o dia de hoje e não andar ansioso por coisa alguma. Pensando bem, gostaria que essa história estivesse mais forte na minha mente.

Oitavo: A quem você serve?
Se somos mordomos, para quem nós trabalhamos? Se você trabalha para você mesmo e usa tudo que está em suas mãos para te servir, você entra num universo egocêntrico que ferirá todos a sua volta e por fim a você mesmo. Mas o que tenho reparado é que muitos servem os seus bens. Por exemplo. Um rapaz descobre que tem grande potencialidade para jogar basquete. Então ele passa grande parte da vida treinando basquete e fazendo muitas coisas para conseguir entrar num time de basquete profissional, mas ninguém o chama. Quando vê, ele saiu de casa e hoje está vendendo a sua própria alma e comendo o pão que o diabo amassou para conseguir entrar no time. Ele tinha uma grande habilidade que veio para ajudá-lo, mas acabou o destruindo. Sua habilidade veio para lhe ajudar, mas ele que tentou ajudar às suas habilidades e se tornou escravo delas. Isso parece antagônico a algumas coisas que disse antes e realmente seria dependendo de a quem a você serve. Se você cuida de seus talentos e bens em fidelidade ao dono dos talentos e bens, eu diria que você teria mais uma pista ao sentido da vida, pois compreenderia que aquilo que você tem não é para você, mas para ele e, consequentemente, para os seus.

Nono: Relacionamentos interpessoais.
Aí começa algo que compreendo como muito belo. Cada um servindo com suas habilidades. Cada um diferente do outro trabalhando para um bem comum. Quem é bom em educar, eduque. Quem é bom para projetar casa, projete. E quem for bom em construir, construa. Aquele que é bom em aconselhar aconselhe. Quem não for, fique quieto. Quem for bom de cuidados e serviços, assim o faça.

Décimo: Vira-vira da vida.
Vai ter uma hora que você vai estar num emprego novo, vai ter uma vez que você vai mudar de cidade, vai ter uma hora que você vai querer outro emprego, outra hora que você vai ter que mudar sua alimentação, outro momento você não vai dormir porque a caçula chegou, ou então porque a caçula deixou o celular em casa e já são quatro horas da manha, você vai perder alguém querido, você vai ganhar um salário menor do que está acostumado, andropausa, uma vergonha em público, o prêmio de melhor funcionário do ano que em fevereiro nem você mesmo se lembra. A vida vai nos colocando em desafios diferentes a cada dia. E a nossa pergunta é: E aí, nobre homem, o que me foi confiado para hoje?

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