quarta-feira, 23 de maio de 2012

A falsa crença no basquete


Era uma vez um garoto de bom coração que jogava basquete estupidamente bem. Seu grande problema é que na aula de educação física seu professor só dava futebol e o garoto era uma verdadeira catástrofe nesse esporte. Isso lhe fazia um fácil alvo de zombaria e por não saber lidar com a situação o garoto ainda sofria por não conseguir ser aceito no grupo.
Certo dia, bem para o final do ano, para a grande alegria do garoto, o professor de educação física resolveu não dar futebol, mas basquete. O garoto ficou muito feliz. Ele não era apenas bom nesse esporte, mas amava praticá-lo. E, assim, o garoto também estava com uma grande expectativa de que a sua vida tomaria um novo rumo após aquela aula. Ou melhor, depois do grande show de exibicionismo do garoto de bom coração que jogava basquete estupidamente bem.
E pegou a bola. Era um exercício simples. 4 fileira de alunos estavam formada de um lado da quadra. Cada aluno que estava como primeiro de sua fila deveria atravessar a quadra batendo a bola e, chegando próximo a cesta, deveria lançar a bola de fora do garrafão para a cesta. Se não acertasse, era só pegar a bola e tentar outra vez e, assim que conseguisse, deveria voltar para o final de sua fileira batendo a bola, mas dessa vez, andando de costa. Concluído, o próximo aluno da fileira faria a mesma atividade. Era coisa simples, o primeiro exercício, só para aquecer.
E o garoto foi o primeiro a sair batendo a bola atravessando a quadra. Ele não passou a bola por de baixo da perna, não batia a bola por de trás do corpo, não fazia nada de excepcional, só fazia o exercício. Ele estava de boa e queria mostrar que de boa ele era bom. Mas sua cabeça estava a mil. Ele já poderia ver as pessoas olhando para ele surpreso em ver que ele não era um total perdedor, mas que ele tinha muitos outros talentos escondidos. Em breve, as pessoas já lhe chamariam para jogar outra coisa, mais pra frente seria chamado até para uma festa. E não iria demorar a alguém lhe chamar de amigo. Não, isso ele tinha certeza. E cá entre nós, sua popularidade poderia crescer de um tanto que no ano seguinte ele poderia até começar um namoro. Já pensou?
E o garoto atravessou a quadra, com enorme alegria, mas errou a cesta. E os 3 outros alunos acertaram de primeira. O garoto correu atrás da bola e ainda cheio de esperança tomou a sua marca e lançou novamente para a cesta, mas errou outra vez. E outras pessoas das outras fileiras chegavam e acertavam de primeira. Minto, na verdade, do total, 3 pessoas só acertaram de segunda. E o garoto ficava ainda tentando enquanto uma fileira inteira o assistia esperando ele conseguir para então também participar da brincadeira (ou, para alguns, da grande oportunidade de vencer na vida).
Estava muito humilhante. Ele arremessava, arremessava e arremessava. E nada. Já estava cansado, o sentimento já era de grande desespero. Corria atrás da bola, se agachava, lançava. Ele já se questionava se era realmente bom no que acreditava. Ele já se questionava se era bom em alguma coisa. Ele perdia a cesta, perdeu os convites para jogar, perdeu os sábados a noite numa festa badalada, perdeu o seu amigo e jamais teria uma namorada.
Vamos garoto, disse o professor, deixa isso pra lá e só volta para o final da fila batendo a bola de costa. Todos os alunos já tinham jogado. Menos os que estavam na fileira do grande perdedor.
O bom de voltar de costa é que não precisa encarar o olhar de ninguém. O regresso de uma batalha perdida, sabendo que não receberia nenhum abraço, nenhum tapa nas costa, nenhuma compaixão. Só olhares de desaprovação.
Mas nesse doloroso retorno, uma coisa ainda pior, ou uma coisa maravilhosa, aconteceu. Ele tropeçou sem querer e caiu no chão. Para evitar uma queda pior, colocou a mão no chão para amortecer o impacto e nisso, torceu o pulso.
A dor era muito grande. Tão grande que parecia que ele não tinha outro problema. Tão grande que o fato dele perder a namorada, ou simplesmente das pessoas o olharem com desprezo era insignificante. Se ele vencesse aquela dor física de verdade, o que seria toda aquela dor emocional? (Ainda mais porque na cultura desse menino, feridas emocionais eram irreais ou uma grande fraqueza).
O problema era sério, ele realmente teve que enfaixar o braço. Mas agora a dor já tinha passado e o outro problema voltou à tona. Ele chegaria à escola no dia seguinte ferido fisicamente, se mostrando fraco e, ainda, seria um grande motivo de zombaria dos amigos pela sua performance horrível no basquete. Mas assim que chegou à escola, todos o viram com a faixa e se preocuparam. Já não tinha graça ou contexto para zoar. E as pessoas chegavam a ele para saber se ele estava bem, como tinha acontecido, quando ele iria melhorar. E com essa história o garoto pode experimentar o que era ser respeitado e sentiu que pessoas se importavam com ele.
Que lições você levaria se estivesse no lugar do garoto?

Um comentário:

  1. Texto legal. A sede pela popularidade e aceitação o desviou daquilo que ele gostava e sabia fazer.
    Zombar os outros é agradável porque faz o zombador se sentir melhor, se fulano é ruim, isto torna o beltrano melhor.
    Talvez a preocupação de seus colegas com seu machucado fosse causada por culpa, ou curiosidade, ou simplesmente o fato dele ser zoado por ser perna de pau não significava que não gostassem dele, e ele começou a perceber isto quando se machucou.

    Isto me lembrou daus histórias:
    Quando eu estava na quinta série tive aula de basquete na educação física. Numa das aulas o professor montou os times que iriam jogar, uma das pessoas do meu time disse claramente que o time era bom mas que eu o estragava, tal afirmação teve a concordância de alguns da equipe. Durante o jogo fui o jogador que mais roubou bolas do time adversário o que contribuiu grandemente para a vitória do meu time. Após o jogo, o aluno que havia me zoado me agradeceu pediu desculpas.

    O tempo passou, e quando estava no ensino médio, em outro colégio, meus amigos e eu fomos jogar futebol num sábado. Durante o jogo, um dos meus amigos machucou o pé, e ligou para sua mãe, que veio buscá-lo num honda civic. Voltei para casa com minha caloi cross e na segunda-feira descobrimos que ele estava com uma tornozeleira pois havia torcido o pé no jogo de sábado. Imediatamente começamos zoar com ele dizendo que aquilo era frescura.

    Abraço

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