quarta-feira, 14 de março de 2012

O amargo do amigo

Uma das coisas mais valiosas que tenho é a amizade. Digo isso sem medo de errar. Sinto-me muito bem no meio de amigos e mesmo quando estou distante deles sinto-me bem só por saber que eles existem. Gosto de ajudar meus amigos. Gosto de ser ajudado por eles. Na verdade, sinto muitas vezes paz no meio de um desafio só por lembrar que tenho um amigo para poder contar. E me alegro muito quando amigos que muito ajudei não precisam de mim e mesmo sem precisar ficam do meu lado porque é bom. É bom também dar risada, falar besteira, devanear, tirar conclusões sobre a vida, compartilhar uma descoberta, uma alegria, ou até mesmo ficar quieto, só do lado da pessoa sem falar nada. Lógico que entre tantos contatos, alguns ocupam lugares mais privilegiados no coração, na mente e na agenda. Para esses, falamos que amamos. O genuíno amor filadélfia.
Por mais perfeito que isso possa parecer, quando estreitamos os laços também abrimos oportunidades para alguns conflitos. O encontro entre pessoas imperfeitas que se desafiam a se enxergarem de uma distância em que não são mais normais pode dar nisso. Ou nunca ninguém teve algum problema com algum irmão, por exemplo? Mas quando a união é estabelecida pelo sangue, dá-se a impressão de que o laço é mais firme, no entanto cria-se muito mais oportunidade para nos decepcionarmos. Não é assim que funciona? A gente briga a infância inteira com os irmãos e quando vimos, mesmo depois de um ter machucado o outro das mais diversas formas, continua sendo irmão. Aliás, não são essas brigas que ficam, mas tudo o que aconteceu entre elas.
Já entre amigos que não compartilham do mesmo sangue ou sobrenome, o que poderia então fortalecer os seus laços? Se no primeiro caso (entre irmãos) o laço transcende as mancadas, será que é possível existir mancadas, pisadas na bola e mágoas dentro da amizade? Ou essa relação é estabelecida pela perfeição? É possível magoar alguém que nós amamos? Quem tem família, por exemplo, sabe que sim. Mas esse é só um exemplo de tantas relações que vez ou outra pode haver mágoa. Só que na amizade podemos escolher, diante de uma frustração, se fortalecemos a amizade ou trocamos o núcleo de amigos a cada 2 ou 3 anos.
Creio que fortalecer a amizade seja o mais saudável, mas não é algo que acontece do nada. É preciso se empenhar, pois realmente relacionamentos quanto mais próximos vão ficando, mais dificuldades vão surgindo. Paulo de Tarso aconselhando uma comunidade disse para serem pacientes com a limitação do outro, dar suporte em suas dificuldades com amor, livrarem-se de qualquer amargura, indignação, calúnia e estarem sempre dispostos a perdoar.
Nesta semana me encontrei com uma pessoa muito especial que eu já não falava há 5 anos por um erro que cometi. A situação enganava como que não precisasse tocar no assunto, mas simplesmente agir como se nada tivesse acontecido seria um ato de covardia. Justificativa também não cabia, isso só iria cansar. Por isso, só disse olhando nos olhos que eu sabia que tinha pisado na bola muito feio e pedi perdão. Essa experiência me ensinou pelo menos duas coisas. Primeiro é que o ser humano é muito burro. Depois que o perdão é realmente libertador.