sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O problema de ir estar gerundiando

Com suposta origem em traduções literais do inglês de expressões empregando o futuro contínuo, o gerundismo espalhou-se feito gripe em menos de uma década e virou uma febre nacional. Hoje está presente nas conversas coloquiais, nas reuniões de empresas, ao telefone, nas conversas formais, nos e-mails corporativos e até nas salas de aula. É uma linguagem democrática sem distinção de classe, credo, raça, profissão, sexo, idade ou formação acadêmica. Há pouco tempo, o gerundismo não era acusado nem na correção ortográfica do Word (Como se isso significasse alguma coisa). O que mais me chama a atenção não é a sua tamanha popularidade, nem a sonoridade desse vício, mas o próprio significado da frase que é mudado ao escolher tal caminho.
Gerundismo é um vício de linguagem que ocorre por abuso de verbos no gerúndio empregando-os incorretamente. Quando digo, por exemplo, “Estou escrevendo” eu não quero simplesmente dizer que eu escrevo, mas quero enfatizar que durante um período eu pratico a ação. As perguntas “O que você faz?” e “O que você está fazendo?” são bem diferentes, pois na primeira questão, mesmo feita no presente, posso responder sobre algo que faço todos os dias, mas que não obrigatoriamente esteja sendo feito no momento da resposta. Já na segunda questão, sou obrigado a dizer o que faço exatamente agora. Assim, dizer “amanhã estarei trabalhando até as 18h” estaria correto (se não fosse sábado), pois, mesmo utilizando o gerúndio para expressar ação futura, a ênfase da oração não está na ação, mas em seu período que é duradouro e contínuo. (Mesmo assim, recomendo “amanhã vou trabalhar até as 18h” para evitar confusões).
Esse é o ponto em que vejo o maior problema do gerundismo. Quando digo “Vou estar trabalhando”, a ênfase da minha fala não está na ação. Então, onde está? Quando alguém responde a uma solicitação com um ”Eu vou fazer”, demonstra-se um grande compromisso com a ação, transmitindo assim muita segurança que a ação será feita. Enquanto a resposta “Eu vou estar fazendo” mostra insegurança do autor da frase e que sua maior preocupação não estar em fazer, mas em dar uma resposta que agrade. Ninguém fala, por exemplo, “vamos estar tomando uma cerveja”, pois quando alguém convida, está muito comprometido com a ação, no entanto, quando alguém fala que não vai, é provável que ela escute “vamos estar pensando em você enquanto estivermos no bar” – mais uma vez a ênfase não está no “pensar em você”, mas no “estar no bar” que se refere ao período contínuo.
Assim, vejo que o cuidado que devemos ter com a língua não é simplesmente por uma formalidade do que se convencionou certo ou errado, ou se é ou não é sonoramente agradável, mas principalmente se passamos corretamente o que queremos dizer. O maior problema não está no gerundismo, mas está em vontade de se comprometer com ações e transmitir confiança.