sexta-feira, 3 de junho de 2011

Analisando uma obra de arte.

Eu sempre gostei muito de arte. Gosto de ficar olhando um quadro, por exemplo, e fazer diversas leituras a partir daí. É incrível, que depois que a gente faz isso, muita coisa muda.

Analisei um tempo atrás a obra Les ménines, de Picasso. Esse é uma releitura do quadro Las meninas, de Velázquez, do século XVII. Como uma releitura, é importante analisar a obra inspiradora, para detectar os discursos reproduzidos no Picasso e compreender melhor as informações que o autor expressava.
A obra de Velázquez tem uma grande importância para a história da arte. Um ponto fundamental para a pintura ser tão significativa é a presença bem evidente do auto-retrato em meio aos outros personagens, numa época em que se pintava somente as nobres família, perdendo relevância autoria das telas. A partir dessa peça, o artista começa a se destacar em seus trabalhos. Outra importância da obra vem pela forma de Velázquez compor o espaço, trabalhar com a perspectiva e a luz, mostrando seu domínio no tratamento de cores, tons e facilidade para caracterizar as personagens. Como dizia o próprio Picasso a respeito de Velázquez, “verdadeiro pintor da realidade”.
Já a obra de Picasso, com seus traços cubistas, demonstrava uma aversão à realidade. Mas também, no contexto histórico dessa releitura, pós 2ª grande guerra, com o continente europeu em fase de reconstrução, as pessoas estavam muito desgostosas. Picasso, então, que era espanhol, país que havia apoiado o nazismo, ganhava ainda mais razões para negar a realidade, a própria realidade, o próprio ser. Isso fica evidenciado quando ele faz a releitura de um quadro de um autor que também era espanhol, mas ao intitulá-lo, coloca o nome de mesmo significado da obra de Velázquez (As Meninas), mas em uma língua que não é de sua origem. Por sinal, a língua que ele escolheu é de um país que foi muito prejudicado com o nazismo, a França.
Por fim, outro ponto que me impressionou e demonstrou grande genialidade do Picasso foi mudar o foco do quadro original. Enquanto o grande destaque de um quadro era o auto-retrato, agora um dos pontos mais importante é a entrada da luz e o autor quase desaparece. Enquanto um quadro ficou importante por um pintor se apresentar, na releitura de Picasso, existe um pintor que quer simplesmente sumir.
Eu gosto muito de analisar obras de arte. Nem sempre a gente tem todas as informações para compreender a intenção do autor, mas sempre temos algum repertório para fazer a leitura de alguma obra. Essa semana eu fiquei me lembrando bastante de um dia, depois de muito olhar para um quadro de um casal apaixonado eu exclamei "Puxa, que porco bonito", ainda meio contrariado do porque um artista desenharia de forma tão abstrata um porco. O artista ficou chateado com a minha leitura, mas eu realmente tinha visto um porco. E o pior, era um dos porcos mais bonitos que eu já vi. Ele então disse que havia um casal fazendo amor e que não tinha nenhum porco na imagem. Voltei a olhar o quadro e me desesperei por ver somente o porco. E olha que o porco era realmente incrível. Porém, quando fico desesperado, começo a rir. Foi aí que o artista se chateou mesmo, pensando que eu zombava da cara dele. A verdade é que eu gostei muito de seu talento e tenho quase certeza que compreendi todos os seus outros trabalhos. Mas depois daí, tivemos uma relação diferente. Isso sempre virou motivo de risada e tivemos um carinho especial por eu ter visto um porco onde um casal fazia amor. Queria poder agora dar um abraço no Nilton agora, mas fica então esse post pelo menos como memória aos amigos e familiares.