quarta-feira, 23 de maio de 2012

A falsa crença no basquete


Era uma vez um garoto de bom coração que jogava basquete estupidamente bem. Seu grande problema é que na aula de educação física seu professor só dava futebol e o garoto era uma verdadeira catástrofe nesse esporte. Isso lhe fazia um fácil alvo de zombaria e por não saber lidar com a situação o garoto ainda sofria por não conseguir ser aceito no grupo.
Certo dia, bem para o final do ano, para a grande alegria do garoto, o professor de educação física resolveu não dar futebol, mas basquete. O garoto ficou muito feliz. Ele não era apenas bom nesse esporte, mas amava praticá-lo. E, assim, o garoto também estava com uma grande expectativa de que a sua vida tomaria um novo rumo após aquela aula. Ou melhor, depois do grande show de exibicionismo do garoto de bom coração que jogava basquete estupidamente bem.
E pegou a bola. Era um exercício simples. 4 fileira de alunos estavam formada de um lado da quadra. Cada aluno que estava como primeiro de sua fila deveria atravessar a quadra batendo a bola e, chegando próximo a cesta, deveria lançar a bola de fora do garrafão para a cesta. Se não acertasse, era só pegar a bola e tentar outra vez e, assim que conseguisse, deveria voltar para o final de sua fileira batendo a bola, mas dessa vez, andando de costa. Concluído, o próximo aluno da fileira faria a mesma atividade. Era coisa simples, o primeiro exercício, só para aquecer.
E o garoto foi o primeiro a sair batendo a bola atravessando a quadra. Ele não passou a bola por de baixo da perna, não batia a bola por de trás do corpo, não fazia nada de excepcional, só fazia o exercício. Ele estava de boa e queria mostrar que de boa ele era bom. Mas sua cabeça estava a mil. Ele já poderia ver as pessoas olhando para ele surpreso em ver que ele não era um total perdedor, mas que ele tinha muitos outros talentos escondidos. Em breve, as pessoas já lhe chamariam para jogar outra coisa, mais pra frente seria chamado até para uma festa. E não iria demorar a alguém lhe chamar de amigo. Não, isso ele tinha certeza. E cá entre nós, sua popularidade poderia crescer de um tanto que no ano seguinte ele poderia até começar um namoro. Já pensou?
E o garoto atravessou a quadra, com enorme alegria, mas errou a cesta. E os 3 outros alunos acertaram de primeira. O garoto correu atrás da bola e ainda cheio de esperança tomou a sua marca e lançou novamente para a cesta, mas errou outra vez. E outras pessoas das outras fileiras chegavam e acertavam de primeira. Minto, na verdade, do total, 3 pessoas só acertaram de segunda. E o garoto ficava ainda tentando enquanto uma fileira inteira o assistia esperando ele conseguir para então também participar da brincadeira (ou, para alguns, da grande oportunidade de vencer na vida).
Estava muito humilhante. Ele arremessava, arremessava e arremessava. E nada. Já estava cansado, o sentimento já era de grande desespero. Corria atrás da bola, se agachava, lançava. Ele já se questionava se era realmente bom no que acreditava. Ele já se questionava se era bom em alguma coisa. Ele perdia a cesta, perdeu os convites para jogar, perdeu os sábados a noite numa festa badalada, perdeu o seu amigo e jamais teria uma namorada.
Vamos garoto, disse o professor, deixa isso pra lá e só volta para o final da fila batendo a bola de costa. Todos os alunos já tinham jogado. Menos os que estavam na fileira do grande perdedor.
O bom de voltar de costa é que não precisa encarar o olhar de ninguém. O regresso de uma batalha perdida, sabendo que não receberia nenhum abraço, nenhum tapa nas costa, nenhuma compaixão. Só olhares de desaprovação.
Mas nesse doloroso retorno, uma coisa ainda pior, ou uma coisa maravilhosa, aconteceu. Ele tropeçou sem querer e caiu no chão. Para evitar uma queda pior, colocou a mão no chão para amortecer o impacto e nisso, torceu o pulso.
A dor era muito grande. Tão grande que parecia que ele não tinha outro problema. Tão grande que o fato dele perder a namorada, ou simplesmente das pessoas o olharem com desprezo era insignificante. Se ele vencesse aquela dor física de verdade, o que seria toda aquela dor emocional? (Ainda mais porque na cultura desse menino, feridas emocionais eram irreais ou uma grande fraqueza).
O problema era sério, ele realmente teve que enfaixar o braço. Mas agora a dor já tinha passado e o outro problema voltou à tona. Ele chegaria à escola no dia seguinte ferido fisicamente, se mostrando fraco e, ainda, seria um grande motivo de zombaria dos amigos pela sua performance horrível no basquete. Mas assim que chegou à escola, todos o viram com a faixa e se preocuparam. Já não tinha graça ou contexto para zoar. E as pessoas chegavam a ele para saber se ele estava bem, como tinha acontecido, quando ele iria melhorar. E com essa história o garoto pode experimentar o que era ser respeitado e sentiu que pessoas se importavam com ele.
Que lições você levaria se estivesse no lugar do garoto?

quarta-feira, 14 de março de 2012

O amargo do amigo

Uma das coisas mais valiosas que tenho é a amizade. Digo isso sem medo de errar. Sinto-me muito bem no meio de amigos e mesmo quando estou distante deles sinto-me bem só por saber que eles existem. Gosto de ajudar meus amigos. Gosto de ser ajudado por eles. Na verdade, sinto muitas vezes paz no meio de um desafio só por lembrar que tenho um amigo para poder contar. E me alegro muito quando amigos que muito ajudei não precisam de mim e mesmo sem precisar ficam do meu lado porque é bom. É bom também dar risada, falar besteira, devanear, tirar conclusões sobre a vida, compartilhar uma descoberta, uma alegria, ou até mesmo ficar quieto, só do lado da pessoa sem falar nada. Lógico que entre tantos contatos, alguns ocupam lugares mais privilegiados no coração, na mente e na agenda. Para esses, falamos que amamos. O genuíno amor filadélfia.
Por mais perfeito que isso possa parecer, quando estreitamos os laços também abrimos oportunidades para alguns conflitos. O encontro entre pessoas imperfeitas que se desafiam a se enxergarem de uma distância em que não são mais normais pode dar nisso. Ou nunca ninguém teve algum problema com algum irmão, por exemplo? Mas quando a união é estabelecida pelo sangue, dá-se a impressão de que o laço é mais firme, no entanto cria-se muito mais oportunidade para nos decepcionarmos. Não é assim que funciona? A gente briga a infância inteira com os irmãos e quando vimos, mesmo depois de um ter machucado o outro das mais diversas formas, continua sendo irmão. Aliás, não são essas brigas que ficam, mas tudo o que aconteceu entre elas.
Já entre amigos que não compartilham do mesmo sangue ou sobrenome, o que poderia então fortalecer os seus laços? Se no primeiro caso (entre irmãos) o laço transcende as mancadas, será que é possível existir mancadas, pisadas na bola e mágoas dentro da amizade? Ou essa relação é estabelecida pela perfeição? É possível magoar alguém que nós amamos? Quem tem família, por exemplo, sabe que sim. Mas esse é só um exemplo de tantas relações que vez ou outra pode haver mágoa. Só que na amizade podemos escolher, diante de uma frustração, se fortalecemos a amizade ou trocamos o núcleo de amigos a cada 2 ou 3 anos.
Creio que fortalecer a amizade seja o mais saudável, mas não é algo que acontece do nada. É preciso se empenhar, pois realmente relacionamentos quanto mais próximos vão ficando, mais dificuldades vão surgindo. Paulo de Tarso aconselhando uma comunidade disse para serem pacientes com a limitação do outro, dar suporte em suas dificuldades com amor, livrarem-se de qualquer amargura, indignação, calúnia e estarem sempre dispostos a perdoar.
Nesta semana me encontrei com uma pessoa muito especial que eu já não falava há 5 anos por um erro que cometi. A situação enganava como que não precisasse tocar no assunto, mas simplesmente agir como se nada tivesse acontecido seria um ato de covardia. Justificativa também não cabia, isso só iria cansar. Por isso, só disse olhando nos olhos que eu sabia que tinha pisado na bola muito feio e pedi perdão. Essa experiência me ensinou pelo menos duas coisas. Primeiro é que o ser humano é muito burro. Depois que o perdão é realmente libertador.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Romana 15 anos



Neste ano a Confeitaria Romana (uma conceituada panificadora, rosticeria e confeitaria de Campinas) completou 15 anos e fez a sua comemoração com uma bela campanha para o povo da cidade celebrar também a data, recordando deliciosos momentos proporcionados pela Romana.
A campanha “15 anos recheados de momentos deliciosos” foi criada pela agência que eu trabalho, EE2 Propaganda. Lembro-me até hoje do dia que fui almoçar lá e fiquei olhando por um bom momento para o seu logo: Romana, fondata 1996. Espera aí, pensei, a Romana vai completar 15 anos daqui a pouco. Voltei do almoço já falando sobre importante evento e todos do trabalho se moveram para criar a tão bela campanha.
Criamos um selo comemorativo, fizemos um jornalzinho contando a história, incluindo depoimento de clientes e colaboradores. Trabalhamos com o PDV, fizemos anúncios especiais voltado para famílias, casais, business, público light e para a turma que é apaixonada pelo fim de noite.
Essa foi uma campanha que eu gostei muito de participar. No texto mesmo, eu quis manter o mesmo conceito que já venho desenvolvendo desde o começo do ano de ambiente aconchegante para passar deliciosos momentos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Matéria sobre o Caverna do Dragão

A gente não faz ideia do público que é alcançado com um blog. Às vezes, parece que estamos escrevendo só para nós mesmo, mas depois aparece um e outro comentando sobre isso ou aquilo que escrevemos, desconstruindo assim todo o nosso conceito do blog. O espanto é ainda maior quando tudo é feito despretensiosamente, sem um tema específico e muito menos regularidade para escrever. Então, para nos deixar ainda mais surpreendido, aparecem uns convites que nunca imaginamos que um dia receberíamos.
No mês passado, saiu uma matéria na revista SaraivaConteúdo falando sobre o Caverna do Dragão. O interessante é que eu fui uma das pessoas procuradas para a jornalista fazer a matéria. Já faz um tempo que eu escrevi sobre o desenho Caverna do Dragão. Não sei por que, mas fiquei refletindo sobre esse desenho por mais de uma semana até que eu decidi escrever a respeito em meu blog e libertar aquele pensamento de minha cabeça. Mas não sabia que de lá iria para tão longe.
Fora a entrevista que dei, surgiram outros convites bem diferentes por causa dos meus posts. Mas isso é assunto para outro dia.
Quem quiser ler a matéria inteira do SaraivaConteúdo é só entrar neste link http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/42335




Por dentro da Caverna do Dragão
22. 11. 2011
Filmes e Séries
Por Luma Pereira
Na foto, o personagem Hank do desenho Caverna do Dragão
Andar na montanha russa é sempre uma aventura. Mas, para as personagens do desenho animado Caverna do Dragão, a adrenalina foi ainda maior: o carrinho os levou para um mundo de fantasia – cheio de mágica, monstros, surpresas e perigos.
A história vem do jogo de RPG homônimo (Dungeons & Dragons, mesmo nome da animação em inglês) criado pela TSR, e fez tanto sucesso que virou desenho animado. Produzido pela Marvel, possui 27 episódios e três temporadas, que foram passadas pela primeira vez entre 1983 e 1986.
Durante um passeio ao parque de diversões, os seis jovens, Hank, Eric, Presto, Diana, Sheila e Bobby, andam num brinquedo novo – semelhante a uma montanha russa fantasma – que os leva, por meio de um portal, para um mundo místico. Há também o unicórnio Uni que, no outro mundo, vira uma espécie de mascote da turma.
Cada um dos jovens recebe uma arma e um poder específico para se defender. Hank ganha um arco mágico e Eric, um escudo. Presto torna-se mago e Diana, acrobata. Sheila recebe uma capa de invisibilidade e Bobby, um tacape mágico.
Eles querem encontrar o caminho de casa, objetivo que não se modifica no decorrer da série. “Esse ritual de repetição é importante para que o público saiba o que buscar no desenho”, afirma Caroline Casali, mestre em Ciências da Comunicação e fã do desenho.
Encontram também o Mestre dos Magos, sábio que sempre lhes diz enigmas sobre como voltar para seu mundo. E o Vingador, inimigo que eles têm de enfrentar em sucessivas batalhas. Também se deparam com Tiamat, dragão de cinco cabeças.
A popularidade do Reino
No Brasil, Caverna do Dragão foi transmitido pela Rede Globo nas décadas de 1980 e 1990. Caroline afirma que o desenho ainda é lembrado como o preferido de muitos adultos. E até hoje, de tempos em tempos, é reprisado na televisão.
“A série conquistou as crianças pelos valores que fazia circular, como amizade, bondade, humildade, aventura e recompensas – em uma narrativa cheia de fantasias”, afirma.
Ela diz, ainda, que a expectativa do retorno das crianças à felicidade de suas casas contribuiu para manter um público fiel.
Lênio Bronzeado Mendes, publicitário e fã de Caverna do Dragão, conta que costumava assistir ao desenho e pensar “hoje eles vão conseguir [voltar para seu mundo] e não perco esse episódio por nada”.
“A magia de Caverna do Dragão foi justamente fazer este sujeito nunca conseguir seu objeto de desejo (ir para casa), estimulando o público a acompanhar todos os episódios na esperança do final feliz”, enfatiza Thais Garcia, fã da série, que escolheu o desenho como tema de seu TCC, em jornalismo, pela Universidade Federal de Santa Maria.
Além da amizade, outros valores são passados por meio das narrativas de fantasia e de sonho. Como a sabedoria do mais velho, representada pelo Mestre dos Magos, que, no começo de cada episódio, fornece dicas e ensinamentos aos jovens.
“Tanto para a sociedade dos anos 80 quanto para as crianças de agora, o que o desenho traz de mais valioso são os valores de união para um objetivo em comum e de obediência à sabedoria do mais experiente”, acredita Caroline.
Caroline considera que a principal diferença entre os desenhos de hoje e os antigos está na forma da narrativa. Caverna do Dragão conta a história linearmente, sendo que bem e mal são facilmente identificáveis.
“A série apresenta uma linguagem simples, onde o fantástico e o mágico envolvem uma narrativa com herói e vilão”, completa Thais.
Desenho estilizado do Mestre dos Magos e Uni
Fãs eternos
Eduardo Damone, fã da série, escreveu o livro Caverna do Dragão: O Reino (Above Publicações). Ele ficou intrigado por o desenho não ter tido um episódio final e decidiu escrever sua própria “releitura” da história.
“Criei fatos que achava necessários para preencher lacunas que existiam no desenho; e mudei algumas coisas que eu pensava que poderiam ficar melhores”, explica.
Escreveu também sobre como era a vida dos jovens antes de entrarem no Reino, como foram parar lá e as aventuras que tiveram até o desfecho da série.
“A diferença mais gritante entre o desenho e o livro é Eric. No desenho, ele é franzino, fraquinho e covarde. No livro, ele é um atleta, joga basquete e luta jiu-jitsu, além de ser metido a ‘bonzão’”, conta o autor.
Logo no início do livro, Damone avisa aos leitores para que se esqueçam do desenho e se preparem para uma nova aventura – a história com outra roupagem. “O livro é mais sombrio que o desenho e tem uma visão mais adulta”, completa.
Para Rodrigo Guerini, professor de história e também fã do desenho, a série tem qualidades, mas também defeitos. “A animação é pobre, pelo menos se compararmos com desenhos atuais. Gosto da trilha sonora, o enredo ganha com ela”, explica.
Lênio conta que gostava das aventuras e do fato de as personagens ganharem poderes mágicos – o arco e a capa de invisibilidade eram seus preferidos.
Confessa que se sentia um pouco angustiado quando assistia à série, pois os jovens nunca conseguiam ir para casa. E hoje ele percebe que isso tem a ver com a própria vida real: o desejo de que tudo volte a ser como era antes.
Como Guerini, ele também aprecia a trilha sonora, que acha envolvente. “Um defeito seria o fato de uma personagem ser sempre a boba, outra ser sempre a que sabe de todas as coisas, uma é sempre a dengosa”, diz. Pois não é assim que as pessoas são de fato?
A polêmica do desfecho
Vingador
Outro motivo que faz Caverna do Dragão ter sucesso na atualidade é o mito criado em torno do último episódio da série. Até hoje o público espera que as seis personagens finalmente consigam voltar para casa, pois o último capítulo jamais foi produzido.
Requiem ficou apenas no papel, com roteiro de Michael Reaves. Está escrito que o Vingador é filho do Mestre dos Magos e que, no passado, escolheu seguir os ensinamentos do mal e aprisionar, numa espécie de mausoléu, o que seu pai havia lhe ensinado de bom. Então, a missão dos jovens não era derrotá-lo, e sim redimi-lo.
Há inúmeras especulações sobre o final, até mesmo a lenda aterrorizante de que, na verdade, os jovens estão mortos e aquele mundo é o inferno. Mestre e Vingador são duas faces de um ser demoníaco, e Uni é responsável por impedi-los de retornar para casa. Essa versão, porém, foi desmentida pelos criadores da série.
Com ou sem final, o desenho ainda tem um público fiel: os adultos que o assistiam na década de 1980 – a animação faz parte da infância deles. Thais acredita que a série ainda seja assistida hoje, “mas a atual geração de crianças [que vê as reprises] não dá a mesma atenção ao desenho como a geração das décadas de 80 e 90”.
E os seis jovens continuam tentando retornar para o parque de diversões, para a montanha-russa, para o seu mundo. Quem podia imaginar que uma ida ao parque traria tantas aventuras?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O problema de ir estar gerundiando

Com suposta origem em traduções literais do inglês de expressões empregando o futuro contínuo, o gerundismo espalhou-se feito gripe em menos de uma década e virou uma febre nacional. Hoje está presente nas conversas coloquiais, nas reuniões de empresas, ao telefone, nas conversas formais, nos e-mails corporativos e até nas salas de aula. É uma linguagem democrática sem distinção de classe, credo, raça, profissão, sexo, idade ou formação acadêmica. Há pouco tempo, o gerundismo não era acusado nem na correção ortográfica do Word (Como se isso significasse alguma coisa). O que mais me chama a atenção não é a sua tamanha popularidade, nem a sonoridade desse vício, mas o próprio significado da frase que é mudado ao escolher tal caminho.
Gerundismo é um vício de linguagem que ocorre por abuso de verbos no gerúndio empregando-os incorretamente. Quando digo, por exemplo, “Estou escrevendo” eu não quero simplesmente dizer que eu escrevo, mas quero enfatizar que durante um período eu pratico a ação. As perguntas “O que você faz?” e “O que você está fazendo?” são bem diferentes, pois na primeira questão, mesmo feita no presente, posso responder sobre algo que faço todos os dias, mas que não obrigatoriamente esteja sendo feito no momento da resposta. Já na segunda questão, sou obrigado a dizer o que faço exatamente agora. Assim, dizer “amanhã estarei trabalhando até as 18h” estaria correto (se não fosse sábado), pois, mesmo utilizando o gerúndio para expressar ação futura, a ênfase da oração não está na ação, mas em seu período que é duradouro e contínuo. (Mesmo assim, recomendo “amanhã vou trabalhar até as 18h” para evitar confusões).
Esse é o ponto em que vejo o maior problema do gerundismo. Quando digo “Vou estar trabalhando”, a ênfase da minha fala não está na ação. Então, onde está? Quando alguém responde a uma solicitação com um ”Eu vou fazer”, demonstra-se um grande compromisso com a ação, transmitindo assim muita segurança que a ação será feita. Enquanto a resposta “Eu vou estar fazendo” mostra insegurança do autor da frase e que sua maior preocupação não estar em fazer, mas em dar uma resposta que agrade. Ninguém fala, por exemplo, “vamos estar tomando uma cerveja”, pois quando alguém convida, está muito comprometido com a ação, no entanto, quando alguém fala que não vai, é provável que ela escute “vamos estar pensando em você enquanto estivermos no bar” – mais uma vez a ênfase não está no “pensar em você”, mas no “estar no bar” que se refere ao período contínuo.
Assim, vejo que o cuidado que devemos ter com a língua não é simplesmente por uma formalidade do que se convencionou certo ou errado, ou se é ou não é sonoramente agradável, mas principalmente se passamos corretamente o que queremos dizer. O maior problema não está no gerundismo, mas está em vontade de se comprometer com ações e transmitir confiança.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Palavra

Como redator, não poderia deixar de postar meu devaneio a respeito da importância da palavra. Na publicidade, sempre se utilizou a linguagem verbal e não-verbal em sua comunicação, mas, como estamos numa geração, em que nossa sociedade é extremamente visual, e que constantemente está diante de diversas informações simultaneamente, utilizamos cada vez mais dos recursos não-verbais, que são muito mais ágeis e carregam muito mais significados. Mesmo assim, a palavra não perdeu a sua importância, muito pelo contrário, ela é primordial e sua função é insubstituível.
É muito eficaz o exercício dado por um professor de pedir aos seus alunos para descreverem em uma redação o que cada um compreendeu do que foi lecionado em determinada aula. Assim como a nossa compreensão de uma aula aumenta se criamos o hábito de anotarmos tudo o que entendemos durante a aula. A premissa é bem simples. Só quando compreendemos é que somos capazes de transformar uma informação recebida em palavras. Gosto do exemplo de um suposto alienígena na sala de criação da agência que trabalho. Ele ficaria diante dos iMac´s, das cadeiras, do Wall-e e mesmo vendo que tudo era diferente, nada seria chamado de algo diferente a coisa. Mas a partir do momento que os objetos começam a fazer sentido ao ser interplanetário, as palavras viriam para dar razão e valor. Usando o mesmo exemplo, notem que eu citei iMac´s, cadeiras e Wall-e. Eu poderia substituir a palavra iMac por computador e Wall-e por boneco ou brinquedo, mas quando pensei nos objetos, as palavras que vieram em minha mente foram aquelas, que automaticamente revelaram o valor que cada item tem pra mim. A cadeira, por exemplo, era só uma cadeira. Muito confortável por sinal.
Sócrates, conhecido como pai da filosofia ocidental que enfatiza a discussão e o argumento como meio de obter verdades superiores, tinha a palavra como grande força da razão.
A palavra em grego significa logos (λόγος) – a palavra escrita ou falada, também traduzida como o Verbo. No entanto, seu significado ficou muito mais amplo pela filosofia grega. Logos passou a ser a busca de toda a filosofia, tornou-se a razão, aquele princípio cósmico que dá a ordem, beleza e o equilíbrio ao universo. Para você sentir o peso e a importância do logos (palavra) na teologia cristã, por exemplo, o evangelista João descreve que Jesus era esse próprio Logos. Foi dessa palavra que surgiu em nossa língua a palavra “lógica”. A palavra dá sentido, é a razão e torna as coisas lógicas. Também surgiu o sufixo “logia” que, às vezes é traduzido como estudo, na verdade é aquilo que dará sentido as coisas. Exemplo da biologia (bio=vida) que é uma ciência que faz o homem compreender os seres vivos. É também do Logos que originou o termo logotipo, tão utilizado em nosso meio. Um logotipo tem vários símbolos que comunicam de forma não-verbal. Mas ela, carregada de vários significados e conceitos, tem a missão de levar sentido à marca para as pessoas.
Então, em um anúncio publicitário, grosseiramente falando, contamos com uma imagem e com um texto. A imagem se comunica de maneira rápida, mas traz infinitos significados. O texto vem para fazer uma afirmação. Coisa simples, direta e eficaz. Ele traz sentido para o anúncio. E foca o leitor em uma mensagem principal. O filósofo Blaise Pascal, que viveu em 1600 e bolinha, certa vez pediu desculpas em uma de suas cartas por ela ser muito grande e alegou que não teve tempo para escrever uma carta menor. Eu vejo nessa justificativa que realmente é um desafio dizer o que quer dizer com poucas palavras. É preciso maior entendimento do assunto. Sócrates falava sobre a palavra minuciosamente selecionada para a razão brilhar com mais intensidade. Esse é o poder da palavra, minha querida ferramenta de trabalho e de socialização.

“Toda coisa é coisa.
Mesmo variando
Seu tamanho
Forma e cor
É uma coisa.
Mas o que liberta
Da sua condição de coisa
E dá o valor
Que a coisa tem
É a Palavra
Que, quando junto à coisa vem,
Dá sentido a todas as coisas.”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Poema cinematográfico




Semana passada eu escrevi um poema e meu colega, Igor Martins, já fez, para exportação, uma versão cinematográfica do meu texto, com a divina dança de sua namorada, Thais Goes. Só no primeiro dia mais de 500 pessoas já assistiram.
O poema Viagem no Tudo e no Nada foi baseado no livro de Eclesiastes em que provavelmente Salomão, tendo mil mulheres, muitas riquezas e sendo um rei que era constantemente consultado por outros reis devido a sua grande sabedoria, diz que tudo o que fez debaixo do Sol foi correr atrás do vento. Em outras palavras, o autor desse livro possuiu as três divindades mais cobiçadas no nosso tempo: Sexo, Dinheiro e Poder; e mesmo assim sentia que nada lhe trazia algo que o realizasse. Já se sentiu assim?


Viagem no tudo e no nada

Tudo o que foi desejo, eu tive
Tudo o que foi sonho, eu vivi
Tudo o que foi ideal, eu fui
O sentimento ainda era falta
O necessário, eu não sabia

O que foi conquista
Agora era perdido
A dor era insuportável
E os suportes sem força

A vida dava voltas

Nada do que foi desejo, eu tinha
Nada do que foi sonho, eu vivia
Nada do que foi ideal, eu era
O sentimento era busca
O necessário, eu ainda não sabia

Viajei no tudo e no nada
E vi apenas uma grande vaidade
A dor já era fruto de meus atos
Quando queria experimentar felicidade

A volta me dá vida

É necessário Luz para saber
Tudo o que foi feito
foi correr atrás do vento
É necessário Cruz para se render
Nada mais precisa ser feito
Tudo já foi pago